
Por Detrás
das Lápides
A edição do segundo livro de Poemas de Joma Sipe “Por Detrás das Lápides” pertence à
Alguns livros
ainda poderão ser adquiridos enviando um e-mail ao autor joaomsp@sapo.pt e serão
enviados sem qualquer custo de envio.
O livro poderá também brevemente ser adquirido em qualquer loja
da Livraria Almedina ou por encomenda no site Almedina.net.
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loja Fnac ou por encomenda no site Fnac.pt.
Alguns dos 28
poemas que constituem o livro podem ser lidos seguindo o próximo índice. A
estrutura do livro é quadripartida, formando uma estrutura quadrúpla,
o número da ordenação e harmonia. A capa do livro "Por Detrás das Lápides" foi elaborada por adaptação
de uma pintura de Caspar David Friedich.
O livro está
dividido em quatro partes, cada uma delas contendo sete poemas (o número da
ordenação e equilíbrio). A cada uma das partes foi atribuído um nome de uma
estação, contrabalançando com o nome da lápide. “Por Detrás das Lápides” pretende ser um livro de
poesia, que vem de dentro e que é vertido nas folhas de papel completamente nu,
sem qualquer outro tipo de tratamento ou modificação. Fala de sentimentos
ocultos e verdadeiros e de uma outra parte do nosso Ser. Um Ser oculto e
passageiro. Um Ser de névoas e mística, envolto em brumas que se tentam dissipar
com o passar dos dias e das estações. Fala do mar e dos estados de espírito à
beira mar, especialmente em dias de tempestade e de “cinza vestidos”. Fala de
perda e reencontro. Fala da alegria de um novo dia e do desabrochar do amanhecer
e também da melancolia do fim da tarde e dos dias castanhos do Outono e
cinzentos do Inverno. É um livro de épocas e estações. Um livro que apela à
mutabilidade do sentimento, como algo que almeja o eterno que não é ainda.
Parte
I – Vernum Lapis (A Lápide
do Primavera)
II.
E se te disserem...
III.
O cajado da memória
IV.
Na Foz do teu corpo
V.
Como...
VII.
Se me quisesses...
Parte
II - Aestas Lapis (A Lápide do Verão)
VIII.
Estou cansado
IX.
Fogo que arde
X.
Porque não morres?
XI.
Abismo
XIII.
Labirintos de prazer
XIV.
Sepulcros caiados de loucura
Parte
III - Autumnus Lapis (A Lápide do Outono)
XV.
Sombras de luz
XVI. As estepes geladas na
minha voz
XVII.
O Salmo
XVIII.
O Fim do Mundo
XIX.
Em mim arde uma luz
XXI.
Marés em fúria
Parte
IV - Hiems Lapis (A Lápide do Inverno)
XXII.
Pilares de luz
XXIII.
Inocência
XXIV.
Nada peças
XXVI.
O que dizem de mim
XXVII.
A tempestade no meu olhar
Claridade. Claridade.
Claridade.
A ti clamo com gritos
estridentes para que venhas e exorcizes as minhas trevas.
Sê luz nos domínios obscuros
dos meus pensamentos e arde agora, junto com a minha Alma.
Sê o bálsamo e o aconchego
nos meus dias de Inverno, quando neva e chove dentro de mim.
Se pela beleza não te consigo
possuir, de que vale ser luz se não te consigo guardar.
I. Aeternum
Claridade. Claridade. Claridade.
A ti clamo com gritos estridentes para que venhas
e
exorcizes as minhas trevas.
Sê luz nos domínios obscuros dos meus pensamentos e arde
agora,
junto
com a minha Alma.
Sê o bálsamo e o aconchego nos meus dias de Inverno,
quando
neva e chove dentro de mim.
Se pela beleza não te consigo possuir,
de
que vale ser luz se não te consigo guardar.
Olho o mar, neste dia negro, de cinza obscurecido.
Peço-te irmão que me dês abrigo e que minha alma acalmes.
Fui tempestade e pássaro liberto,
nas
profundezas dos mares e meus olhos estão agora submersos
e
não se acalmam com o movimentar do vento.
E o mar está tão agitado e meu coração não o segue.
Tudo em mim está em paz e não mais acalmia deseja.
As ondas que dão à costa lembram-me de ti
e
encontro mais uma razão para chorar.
Desta vez perco-me na alva espuma cor de neve
que
balanceia entre as pupilas do meu olhar.
E danço a dança das gaivotas na crista das ondas.
Meu irmão dá-me abrigo que eu já me esqueci.
E meu peito abre-se ao vento e deseja a tua canção.
Está
frio lá fora e o vento teima em entrar e chama por mim.
E o mar está cinzento, como o céu sobre ele.
No meu peito aberto mora a melodia e o vento.
Estou aqui sozinho, abandonado no destino.
Sinto-me só. Sinto-me tão só,
como
o crepúsculo no interior de uma negra floresta.
Tão só que a solidão já não me quer e me abrasa por dentro
e
me dilacera e arranca de mim palavras de loucura,
de
sabor a fel e medo,
que
não mais desejo guardar.
Palavras agrestes de vento e fúria vestidas.
Desejos insanos que me perseguem.
Quando para casa voltas?
Diz-me se o recordar dos enterros
e
os ciprestes ainda rondam o pátio de tua casa.
Diz-me se os ventos já se acalmaram,
se
trazem notícias de mudança.
Diz-me quando regressarás a casa,
agora
que afastei os negros espectros do Altar da minha alma
e
não mais velas de branca cera ardem no Santuário do meu corpo.
Anseio tanto pelo teu regresso.
Já me esqueci de dizer ao sol para nascer.
Parto melodias em mil pedaços e retalho tecidos com teu
sangue.
Procuro luzes na escuridão e trevas no nascer do sol.
Luto com as palavras.
Rendo-me ao som do vento.
Ouço vozes na alvorada e pinto as madrugadas de santidade.
Visto-me de doce e de amargo.
Mas nada tem sabor.
Tudo está morto e nada vive.
VI. Se eu pudesse...
Se eu pudesse,
por
um instante,
apenas
contemplar a imensidão do teu olhar,
e
nas tuas pupilas descobrir o bálsamo
que
sararia meu dilacerado coração,
encerrar-te-ia,
para
sempre,
dentro
de um frasco de alabastro
e
colocar-te-ia num palácio de mármore
no
centro do mar, de sabor a sal do meu ser.
Se eu pudesse ter
teus
olhos nos meus
só
por um instante
dir-te-ia
que as amarras dos navios
já
se soltaram
e
que os fantasmas do tempo
já
abandonaram os nossos sonhos
e
que podes dormir de novo em paz,
porque
eu estou aqui de guardião
aos
teus pesadelos
para
que nenhum entre
e
te perturbe.
Se eu pudesse, derramaria,
sobre
o teu olhar, um manto de perdão e noite,
feito
de estrelas e tecido com o fio de prata do luar
e
te diria que podias cerrar teus olhos e dormir em paz.
Se eu pudesse seria o teu leito
naquelas
frias noites de Inverno
em
que não estavas a meu lado
e
em que eu sempre lembrava tua presença.
Se eu pudesse agarrar-te-ia nos meus braços
e
proteger-te-ia do frio
que
ecoa nas montanhas altas dos teus medos,
e
dir-te-ia que a culpa que sentias
era
mais um dos fantasmas
que
desaparecem quando a manhã chega
e
que a noite é apenas mais uma ilusão
que
desaparece
quando
te tenho nos meus braços.
XII. O Diário
Debaixo da minha pele procuro por ruínas submersas
já
ocultas por um mar imenso
de
azul e verde misturados
com
o sangue e verde das planícies que fizemos para nós dois.
E hoje apenas quero dizer-te
que
as portas de casa estão fechadas
e
que ocultei as janelas do vento
por
medo das tempestades
e
que no tapete da entrada ainda são os teus pés que mais são desejados
e
que toda a atmosfera da casa anseia pela voz do teu olhar
e
pelos teus passos de sabor a sal.
E hoje apenas te quero falar
de
como limpei o sótão das teias que sempre medo te fizeram
e
que os fantasmas pararam de pedir por alento e abrigo
e
não mais mendigos do tempo batem na nossa porta.
Fiz o jantar e tudo está já na mesa
e
na lareira ardem as últimas recordações que deixaste.
E hoje, apenas hoje, quero falar-te
das
imensidões de escuridão que abandonaste
nas
palavras do diário que encontrei
e
que mesmo as folhas desse livro estavam húmidas de tanto choro escutarem.
As páginas em branco clamam ainda pelas palavras que lhes
dirias.
As páginas em branco ardem agora
nas
chamas da lareira, gritando de desespero por ti não terem sido tocadas.
Nesse teu livro, que encontrei, por entre a folhagem morta
do jardim,
descansam
os olhares dos moribundos
e
repousam aves negras e sombrias
e
ao abri-lo descobri sonhos desfeitos e mortes há muito acontecidas
e
pesadelos infindáveis e noites de solidão e insónia
em
que as visitas de fantasmas acompanhavam as noites límpidas
de
sonhos incuráveis e doenças de medo e sofrimento.
Nesse teu livro havia dor, a dor lancinante de esperanças
mortas,
de
desejos saciados e do começo da perversidade,
que
sempre te acompanhou e ditou o teu viver.
Soube então que a morte para ti veio cedo e que a ceifa já
havia acontecido.
XVI. As Estepes Geladas da minha Voz
Não encontro mais paz agora,
na
imensidão das planícies e estepes geladas da minha voz.
Quero gritar e dizer ao mundo da minha dor.
Falar do que me dilacera e mata lentamente,
como
as drogas que são colocadas no meu corpo
e
que aprisiono para te poder sentir.
Não sei do que falo,
pois
a minha voz só pode ser vista e ouvida
na
imensidão das montanhas longínquas,
ecos
do País do Frio e da Morte,
nas
estepes geladas da minha voz.
Que morre então para além do corpo?
É minh´Alma feita dessa imensidão de
liberdades,
sem
prisões inventadas, fora de ilusões ou sem rumo.
Navego sempre que quero nos mares de sargaço dos meus
sonhos.
E o azul dos céus
vem
de noite beijar
a
língua de areia junto das montanhas do teu corpo.
E os teus seios contam histórias de encantar
como
aquelas que na minha infância
tanto
desejei ouvir...
e
agora anseio pelas mãos
que
percorrem as orgias do meu corpo
e
pelos corpos que junto ao meu querem habitar.
Mas nada mais escolho,
nem
ninguém,
para
além de ti,
que
sempre te juntaste a mim,
nos
campos elíseos dos novos sonhos
de
grito e dor,
nas
estepes geladas da minha voz.
XX. Por Detrás das Lápides
Coloquei na minha fronte um diadema,
e
das minhas pálpebras dois cristais rolaram
caindo
no chão sagrado
que
agora seria de teu túmulo.
E, em ardentes gritos de desespero e alegria,
Abri teu sepulcro e lá me afoguei.
Descobri águas límpidas por detrás da tua lápide,
onde
agora jazia o fim, teve o princípio o seu início.
Por detrás das lápides que adornavam a tua morada,
senti
a relva e as flores da primavera,
que,
tímidas, desabrochavam e com elas
toda
a dor desaparecia
e
o límpido ribeiro de águas correntes,
transformava
o turvo dos meus pensamentos
em
luz e fragrâncias inolvidáveis.
E por detrás da tua lápide havia uma inscrição
que
dizia viveres na imensidão da pedra
e
que havia na morte o sabor da liberdade.
XXV. Preciso de Silêncio
Preciso de silêncio.
Oh como preciso de silêncio.
Preciso de silêncio, como se de pão para a boca se
tratasse.
Preciso do silêncio das noites negras.
Preciso do silêncio dos prados ao vento,
do
desabrochar da flor,
do
esvoaçar da borboleta.
Preciso do silêncio que fica depois da marés ou de uma
noite de fazer amor.
Preciso do silêncio das primeiras neves ou das últimas
chuvas.
Preciso do silêncio que fica depois da morte.
Dentro de mim apenas quero silêncio hoje.
Nada mais me dêem,
nada mais me queiram dar.
Apenas silêncio.
Apenas a Paz dos Mortos é o meu desejo.
Apenas hoje e só hoje quero o silêncio eterno.
Se houvesse mais algum desejo este o seria.
Quero ter águas correntes e estagnadas,
pelo
silêncio,
e
nele me afogar.
Quero ter pântanos silenciosos de nevoeiro e brumas
inebriados,
de
vegetação em luxúria enriquecidos e aprisionados no silêncio.
Quero ser vento no mais alto dos montes
e
o silêncio dos canaviais,
vestir
o linho das montanhas
e
aprisionar a brisa dos oceanos.
Apenas hoje.
Apenas hoje o silêncio quero.
Dêem-me apenas silêncio como alimento e nada mais.
Silêncio.
Apenas silêncio para silenciar meus desejos e acalmar
minhas guerras.
Apenas silêncio e a Paz dos Mortos.
XXVIII. Estou aqui
A candeia dos teus olhos arde agora,
como
um farol no centro do oceano.
Sinto-me cansado e já não mais com forças suficientes,
para
te afastar dos recifes do meu corpo.
Sinto-me cansado e não mais com o brilho suficiente,
para
te afastar do naufrágio no meu ser.
Deixo que o canto das sereias te conduza à baía serena
que
inunda o meu respirar e em cada alento de vida
que
produzo na humanidade tu aí também estás,
como
reflexo do meu brilho.
Sinto-me cansado e já não mais com forças
para
lutar contra a noite ou contra os ventos que sopram
e
te arrastam contra os rochedos de mim mesmo.
Já não adiantam remos nas palavras
nem
sentimentos nos esforços
pois
o teu navio é um barco fantasma à deriva
que
deambula no meu alto mar.
Já de nada te vale seres forte ou te arrastares para longe
do meu mar.
De uma só vez direi ao oceano que se cale
e
aos ventos que se acalmem
e
às brisas do início da manhã ou do fim da tarde
que
se lembrem de te dizer que aqui estou.
Sempre à tua espera.
Abandonado por todos.
Abandonado por ti.
Aqui estou.
À tua espera. À espera da tua chegada.
As cristas das ondas assustam-me tanto,
que
agora temo que não voltes.
Estou tão assustado pela noite,
que
não mais sei guiar-te às imensidões subterrâneas do meu corpo,
que
temo que não o encontres.
Estou tão assustado,
que
temo que te percas para sempre,
nas
cavernas das palavras e dizeres sem sentido.
Estou tão assustado.
Volta,
volta
rápido.
Volta,
devolve-me
a calma que perdi.
Última Actualização: Maio
de 2006 / Last Edit: May 2006
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